domingo, 21 de outubro de 2007

pessoas a duzentos


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Upload feito originalmente por jorgempf
Tinha saido com a Vanda. Tinha combinado com ela no metro e foi ai que soube que ela tinha ligado entretanto ao João e marcado um encontro com ele. Fiquei logo ai levemente indignada, podia-me ter perguntado primeiro se eu me importava. Ou se queria muito ir ter com ele tinha me dito para me dar a escolher não vir antes de eu sair de casa. Ou no mínimo pedia-me desculpa mostrando consciência do que tinha feito. Mas tudo bem, eu já a conhecia o suficiente para saber que o mais certo era ela nem ter consciência de nada disto e portanto devia eu estar preparado para estas cenas ou desistir de me dar com ela.

O que me fez no entanto saltar a tampa, ainda estava para vir. E não tive de esperar muito. Quando entrámos no café combinado por eles o rapaz já lá estava. Era um daqueles cafés de bairro pequenos, lá dentro reinava um silencio absoluto, ouvia-se as moscas aterrarem no nariz gigante do homem por trás do balcão. A indiferença com que lia o jornal mostrava a estafa que a casa lhe estava a dar. Eu nunca ali tinha estado e contava não voltar lá, pelo que me era indiferente o que poderia pensar o homem ou mesmo a velha sentada na mesa do fundo que remexia na bolsa com um olhar perdido de quem se havia já esquecido do que procurava sem contudo se ter dado conta disso, mas mesmo assim, entrei em choque quando ouvi a Vanda num tom normal mas perfeitamente audível por todos, ainda não estávamos ali nem coisa de dez minutos, dizer para o tal João que eu acabava de conhecer:
- Vinha agora a falar com a Carla no caminho para cá que me apetecia comer-te e que se isso te agradasse não via razão para não irmos para um sitio mais tranquilo já de seguida.
Eu? Ela referia-se a uma conversa comigo? Mas, ela tinha vindo calada a viagem toda. Bem que eu havia tentado vários temas. E ela falava agora de irmos para um sitio mais tranquilo? Irmos quem? Mais tranquilo? Mas o café era tão tranquilo, porque não sugeria ela come-lo já ali?

Ainda estava eu a recuperar evitando olhar para os olhos de fosse quem fosse quando ouvi ele responder com um tom de quem fala do tempo:
- a sério? e que foi que ela respondeu?
- que concordava perfeitamente, que se não o fizesse eu o faria ela mesmo que com a vontade que estava se era bom para mim era certamente bom para ela.
Eu não acreditava que o meu corpo estava naquele lugar. Eles até pareciam falar como se eu realmente não estivesse ali. Ainda ponderei ser um sonho, mas sabia perfeitamente que eu nunca sonhava com este grau de nitidez. Foi com este espírito que me levantei e me vim embora sem dizer nada, imaginando que a minha cara devia estar completamente vazia de alguma expressão.

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